Tragicamente oscilante
Eu tenho um vício escroto de me preocupar excesso. Se as coisas não estão fluindo exatamente como eu gostaria ou se fico sabendo de uma possível ameaça aos meus planos, eu travo. Me preocupo com tudo para tentar antecipar tudo e, assim, resolver tudo, mas acabo muitas vezes é criando problemas que talvez nem existiriam de verdade.
A tranquilidade, pra mim, só existe quando os sinais estão todos positivos ao mesmo tempo. O tempo todo. Eu preciso de estabilidade no alto pra me sentir segura. E é curioso que eu esteja escrevendo essa frase exatamente do topo do mundo, de dentro de um avião, esse lugar no qual só me sinto confiante, firme e forte literalmente se não oscilar nem um pouquinho.
É que eu tenho horror a oscilação. Qualquer titubear me soa como anúncio de tragédia. O avião vai cair. O dinheiro sumir. A carreira ruir. A amizade fugir. O amor nem dar tempo de chegar. Me destruo facilmente antes de ser destruída. Transformo a minha mente no pior lugar do mundo e me refugio dentro dela. Em pânico.
Não acho justo eu me tratar dessa maneira. Me dá vergonha. Me sinto descompensada. E tenho pena de mim mesma por dificultar tanto as coisas quando a motivação original é justamente o contrário. “Absolute”neurótica. O que eu gostaria mesmo —muito mesmo— é de facilitar tudo.
Garantir que as coisas vão fluir. Que vai ficar tudo bem. Que eu vou dar conta e não vou ser um peso pra ninguém. Eu quero, principalmente, não precisar me virar, mesmo sabendo que eu viro tão bem. Uma fantasia surreal que ao invés de me afetar como impulso me domina feito trava. Viro prisioneira das minhas próprias tragédias mentais.
Mas, contudo, entretanto e pra sempre, ao menos tenho as palavras. Essas amigas queridas com quem tanto gosto de brincar. Minhas companheiras de vida, especialistas em destravar engasgos de tensão. E, assim, me derramando aos pouquinhos enquanto me distraio com elas, acabo, pelo menos, me corroendo menos.
Pausa entre palpitações.
Trecho de livro
O fim da análise não é o fim da angústia, mas a busca por melhores formas de conviver com ela. Freud dirá que uma análise aponta para o sofrimento ordinário da vida sem os entraves dos sintomas limitantes - Vera Iaconelli no livro “Felicidade Ordinária”


